
Uma favela a céu aberto que abrigava
mais de cinco mil pessoas em um dos
locais mais nobres da cidade de Aracaju.
É dessa maneira que a arquiteta Ana
Libório descreve os mercados centrais e
seu entorno até o final da década de
1990. Ela via beleza onde havia ruína e
tinha vontade de, senão mudar aquele
cenário, ao menos estudar aquele local.
Na época, meados de 1987, a arquiteta
formada pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ), fazia em Salvador uma
especialização em Conservação e
Restauração de Monumentos e Conjuntos
Históricos. Para concluir o curso, Ana
decidiu desenvolver, em sua tese, uma
proposta de revitalização do Mercado
Municipal de Aracaju.
Naquela época, as pessoas costumavam
dizer que Aracaju não tinha nada de
patrimônio, que era uma cidade muito
nova, que isso só existia em São
Cristóvão. Foi então que comecei a
pesquisar sobre esse assunto e levar
para estudar no curso, conta Ana.
O objetivo era resgatar a paisagem
urbana e arquitetônica tradicional do
comércio do início do século XX e,
assim, recuperar um dos pontos mais
simbólicos de Aracaju, que vivia o
início de um processo de abertura
turística.
Problemas
A partir da observação e do estudo da
área, a arquiteta Ana Libório constatou
que era preciso encontrar uma solução
para os mercados centrais de Aracaju.
Aquilo parecia um set de cinema, com
muito engarrafamento, carroças. Os
produtos eram vendidos no chão, formando
o que era conhecido como a ‘feira da
lona´, lembra.
Havia na área, além dos mercados
centrais, uma série de construções que
constituem o acervo ou patrimônio
histórico da cidade, como a Associação
Comercial de Sergipe e o Colégio Nossa
Senhora de Lourdes. Isso sem falar na
confusa rede de barracas feitas de
alvenaria e madeira, que se espalhavam
no entorno dos mercados.
A ocupação irregular dificultava o
trânsito e a circulação de pedestres e
degradava uma das áreas urbanas e
ambientais mais belas da cidade. Naquela
época, os prédios dos mercados ficavam
vazios e o povo ocupava as ruas. Na Rua
Santa Rosa, por exemplo, não passava
nenhum carro, só tinha a feira, relata a
arquiteta.
Soluções
Um conceito avançado foi utilizado para
dar conta da revitalização da região. A
ideia era utilizar o que já existia na
área, ao invés de destruir tudo. Para
tanto, Ana Libório estudou soluções que
fossem condizentes com as necessidades e
as condições econômicas locais, e pensou
também em uma estratégia eficaz para a
locomoção das pessoas.
O estudo da região foi desenvolvido
entre os anos de 1987 e 1990. Em 1992, a
arquiteta e sua equipe foram contratadas
pela Companhia Estadual de Habitação e
Obras Públicas (Cehop) para executar o
projeto de restauro do local. Eles
passaram um ano projetando, a obra
começou a ser feita em 1997 e, no dia 15
de setembro de 2000, foi entregue à
população aracajuana um novo mercado.
Nós planejamos fazer a obra toda em
etapas, para que o comércio não
precisasse ser fechado e as pessoas
tivessem que sair do local, afirma Ana.
Por isso, primeiro foi feita a
construção do Mercado Albano Franco, que
foi concluído em 1998 e surgiu da
necessidade de ampliação da área dos
mercados. Na construção, foram
aproveitados dois galpões abandonados, o
antigo Moinho Sergipe e o Armazém do
Trigo.
O Mercado Albano Franco passou, então, a
comportar o setor de frigorífico e o
hortifrutigranjeiro, constituindo um
autêntico shopping popular da economia
informal. No projeto, foi incluída
também uma praça de eventos. Na época, o
Forró Caju acontecia na Fausto Cardoso,
mas a festa acabava degradando bastante
a praça. Essa solução foi pensada no
sentido de preservar o local, diz a
arquiteta.
Estilos
Ana Libório descreve a área dos mercados
centrais como um livro vivo de
arquitetura. Ela conta que, no local,
podem ser vistos diferentes estilos
arquitetônicos, formando juntos um
conjunto bastante harmônico.
O estilo eclético, muito comum nos
primeiros anos de existência de Aracaju,
pode ser visto no prédio do Mercado
Antônio Franco, que possui a torre do
relógio no pátio interno, afirma ela. Já
o Thales Ferraz obedece ao estilo
neocolonial, com um grande pátio
externo, arcadas e um alpendre. O Albano
Franco, que possui uma estrutura
bastante diferente dos demais, é baseado
no modernismo.
Na obra, levada a cabo com a utilização
de materiais convencionais, optou-se
pelo jateamento e substituição de parte
do reboco original das edificações, que
foi refeito com concreto. A equipe de
arquitetos liderada por Ana decidiu
manter o amarelo-ocre da caiação do
Mercado Antônio Franco, sendo que os
frisos e elementos decorativos foram
pintados de branco-neve, obedecendo ao
estilo eclético.
Outros prédios
Conforme conta Ana Libório, o projeto de
revitalização dos mercados centrais de
Aracaju possuía uma série de
desdobramentos. Havia prédios no entorno
que também precisavam de restauro, como
a Associação Comercial de Sergipe e o do
GBarbosa, cita.
A necessidade de restaurar outras
construções levou a equipe de arquitetos
a se debruçar também sobre os dois
prédios mencionados, além do edifício
Macêdo e do antigo Colégio Nossa Senhora
de Lourdes. De acordo com Ana, esse
trabalho fez com que a memória e a
qualidade ambiental do local fossem
resgatadas, possibilitando à população
um reencontro com o passado.
Áreas como a Rua Santa Rosa, onde antes
havia apenas uma feira, ganharam nova
vida, com o redirecionamento do fluxo de
pedestres e a transferência de todo o
comércio para a área do Mercado Albano
Franco. No mesmo sentido, foi feita uma
interligação entre os mercados e o
terminal de integração, além da
construção de estacionamentos para
carroças e caminhões de carga.
De acordo com Ana Libório, essa foi uma
obra muito grande e complexa, que ela
considera ter sido a solução ideal para
aquela área. Os prédios do Centro da
cidade são lindos e a obra realizada é
maravilhosa. O aracajuano precisa
atentar para a beleza e a importância
dessa área como equipamento fundamental
para o turismo em Aracaju, enfatiza a
arquiteta.
Futuro
No mês de junho, num evento que contou
com a presença do Ministro da Cultura,
Juca Ferreira, e do presidente do
Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (Iphan), Luiz
Fernando de Almeida, o prefeito de
Aracaju, Edvaldo Nogueira, assinou a
participação da capital sergipana no
Plano de Ação das Cidades Históricas -
PAC Cidades Históricas.
Lançado no mês de outubro, o programa é
uma ação voltada aos municípios com
conjunto ou sítio protegido no âmbito
federal e, ainda, a cidades com lugares
registrados como Patrimônio Cultural do
Brasil.
Segundo o prefeito de Aracaju, Edvaldo
Nogueira, apesar de nova, Aracaju possui
um patrimônio histórico e cultural
importante e que precisa ser preservado.
Através do PAC Cidades Históricas,
daremos continuidade ao trabalho de
revitalização e preservação do
patrimônio histórico e cultural que vem
sendo realizado na cidade há mais de
dois anos, ressaltou.
Ainda de acordo com ele, o investimento
é de extrema importância para a capital
sergipana, que terá recuperado um dos
seus conjuntos arquitetônicos
fundamentais. É preciso mobilizar a
sociedade aracajuana para preservar e
cultuar o patrimônio que Aracaju já
possui, que inclusive é um importante
atrativo turístico da cidade, afirma
Edvaldo.
A capital sergipana deve receber um
total de R$ 100 milhões a as ações
previstas no PAC Cidades Históricas
devem estar totalmente concluídas até
2013. Os investimentos serão destinados
para a recuperação de prédios e
conjuntos arquitetônicos tombados e para
a promoção do Patrimônio Cultural como
um todo na cidade de Aracaju. As obras
na cidade devem ser iniciadas no
edifício da Antiga Alfândega, que vai
abrigar o Centro de Cultura da cidade,
com previsão de recursos em torno de R$
3 milhões.
Fonte:Faxaju |